8 perguntas sobre computadores e seres humanos

A 4.ª Revolução Industrial vai acontecer quando “começarmos a falar com computadores como falamos com pessoas”.
Para Arlindo Oliveira, os computadores vão passar a tratar de partes da nossa vida por nós, como fazer compras ou arrumar a casa.
Mas não é só isso. O investigador acredita que as emoções também poderão vir a ser um desenvolvimento natural dos sistemas computacionais.

No contexto da 4ª Revolução Industrial, a diversão, o ensino e o próprio trabalho serão completamente diferentes, diz o autor do livro Mentes Digitais: A Ciência Redefinindo a Humanidade. Uma realidade, afirma Arlindo Oliveira, para a qual as pequenas empresas estão mais bem preparadas do que as grandes e onde vai ser necessário fazer uma grande aposta na formação.

“As emoções vão acabar por ser um desenvolvimento natural dos sistemas computacionais e haverá sistemas com emoções”, diz Arlindo Oliveira.

O que têm os computadores, as células e os robôs em comum? 

Toda a complexidade que existe no mundo atual veio, durante milhões de anos, puramente dos sistemas biológicos e das células.
O mundo que vemos agora tem cerca de 200 anos e seria completamente estranho para uma pessoa que tivesse vivido há 500 anos. Carros, televisões, aviões e telefones seriam difíceis de imaginar.
Estamos habituados à realidade criada pela revolução industrial. A 3.ª Revolução Industrial trouxe computadores, informática, telemóveis e novas formas de interagir com o mundo.
A 4.ª Revolução Industrial será o momento em que os computadores começarem a comportar-se de forma inteligente. É provável que traga mudanças ainda mais profundas.

Como será essa 4ª Revolução Industrial?

Acontecerá quando falarmos com computadores como falamos com pessoas e os computadores começarem a tratar de partes da nossa vida por nós, como fazer compras ou arrumar a casa.
Quando aconteceu a revolução industrial e começámos a construir arranha-céus, linhas de caminhos-de-ferro, aeroportos e aviões, mudámos a natureza do planeta.
Agora, com estas 3.ª e 4.ª revoluções industriais, vamos fazer uma mudança ainda mais profunda.

Que exemplos vê da tecnologia a suportar a evolução da humanidade para o próximo estágio? 

Essa é uma questão mais a longo prazo. Este ambiente em que as pessoas estão constantemente interligadas através do telemóvel é algo que vai ser cada vez mais intenso.
Vai afetar cada vez mais todas as áreas de atividade, desde o ensino à diversão, aos espetáculos e ao entretenimento. Todas essas áreas vão mudar muito.
As tecnologias irão provavelmente evoluir, embora não consigamos prever no que virão a ser.

Qual é o papel das emoções? 

São muito importantes na espécie humana. Não estão lá por acaso, mas porque se desenvolveram no processo evolutivo, criando uma série de ações e reações no ser humano. O medo, por exemplo, leva-nos a fugir das coisas perigosas, o amor leva-nos a reproduzir. As emoções evoluíram porque dão uma vantagem competitiva ao ser humano. Há quem diga que as emoções são a maneira mais avançada de inteligência porque são as mais difíceis de automatizar.

“Embora não esteja a antecipar que um destes «assistentes» possa acordar um dia maldisposto e responda mal, parece-me razoável que se gritarmos com ele possa ter uma reação de espanto.”

E podem existir nestes sistemas computacionais? 

Neste momento, tendemos a não associar emoções aos sistemas computacionais. No entanto, já existem muitos sistemas capazes de detetar as emoções das pessoas.
À medida que queremos melhorar a interface destes sistemas, é natural que eles possam ter reações e emoções básicas. Por exemplo: “percebo que está cansado” ou “percebo que está aborrecido”.
O segundo passo é empatizar com essas emoções. Não estou a antecipar que um destes assistentes possa acordar um dia maldisposto e responder mal. Isso não me parece razoável. Mas parece-me razoável que, se gritarmos com ele, possa ter uma reação de espanto. Isso tornaria a interação mais natural.

Seria estranho ter um sistema que, para quase todos os efeitos, é humano, mas depois não se aborrece, não se zanga e responde sempre no mesmo tom. As emoções acabarão por existir também nestes sistemas.

Como é que serão programadas? 

Os sistemas atuais aprendem por meio da interação, em vez de serem programados em detalhe, e muitos poderão ser treinados para exibir emoções que facilitem a interação humana.
Frequentemente, as emoções estão do lado da pessoa que percebe a emoção. Por exemplo: os animais não falam, não sabemos o que pensam, mas é muito fácil atribuir-lhes emoções (zangado, com fome).
Embora as emoções sejam percebidas pela pessoa que as observa, experiências mostram que robôs podem ser treinados para se relacionar com humanos de forma semelhante aos animais, levando as pessoas a atribuírem emoções aos robôs e a empatizarem com eles. Acredita-se que esses sistemas terão emoções mais controladas e menos variáveis do que as dos seres humanos.

Seremos parceiros ou rivais dos sistemas computacionais? 

Espero que sejamos parceiros. Não faz sentido sermos rivais. Se chegarmos a essa situação quer dizer que fizemos alguma coisa errada. Mas não é impossível que ao projetarmos os sistemas lhes coloquemos objetivos que estão em conflito com os nossos próprios objetivos. Por exemplo, podemos pedir a um sistema que evite o aquecimento global, mas a melhor maneira de o evitar é andarmos a pé e, aí, pode haver conflito de objetivos. Espero que, quando se projetarem sistemas muito complexos, fique garantido que os interesses da humanidade são sempre os primeiros.

Que exemplos vê desse alinhamento de objetivos? 

Nos carros autónomos deve colocar-se como máxima prioridade a salvaguarda das vidas humanas, embora seja necessário fazer opções. Aí temos de garantir que há alinhamento. Imagine um carro de 100 mil euros, programado para evitar destruir-se. Pode ter que decidir entre destruir-se numa ravina, ou atropelar uma pessoa. Essas decisões têm de ser tomadas.
Estes problemas também existem quando somos condutores, só que nós não temos normalmente tempo e as reações são instintivas. Os computadores, como são muito mais rápidos, vão quase sempre ter possibilidade de decidir e conseguem fazer a escolha de atropelar ou não uma pessoa. Temos de garantir que as decisões que são tomadas pelo computador estão alinhadas com os interesses e os valores humanos.

Por que este tema interessa às empresas?

A evolução dos computadores e da inteligência artificial não é apenas um tema tecnológico. Também muda a forma como trabalhamos, comunicamos, aprendemos e tomamos decisões. Para as empresas, isto reforça a importância da formação, da adaptação e de uma comunicação clara em contextos de mudança.

(excerto de entrevista publicada na revista Tecnologia & Qualidade 5, do ISQ em janeiro 2018)

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